Os faraós negros do Egito
Quando vemos um filme sobre o Egito Antigo, os faraós quase sempre aparecem como pessoas de pele clara, interpretados por atores brancos. Mas será que os reis do Egito tinham mesmo esse padrão tão hollywoodiano? E você sabia que, durante quase um século, o Egito foi governado por faraós negros vindos do sul, da Núbia? Neste artigo, contamos a história da 25ª dinastia, a dinastia dos chamados faraós negros.
Qual era a cor de pele dos egípcios?
Em primeiro lugar, é bom lembrar que o Egito fica na África. Ao longo de seus três mil anos de história, a população egípcia foi diversa, com tons de pele que variavam bastante do norte, perto do Mediterrâneo, para o sul, perto da Núbia. Nas pinturas e esculturas, os egípcios costumavam representar a si mesmos com pele marrom-avermelhada, e os núbios com pele mais escura.
Ou seja, a imagem de faraós com pele branca e traços europeus, comum no cinema, não corresponde à realidade. E houve um período em que o trono do Egito foi ocupado por reis vindos do coração da África negra: os faraós da Núbia.
O que era a Núbia
A Núbia era a região ao sul do Egito, ao longo do Rio Nilo, onde hoje fica o Sudão. Ali existiu o Reino de Cuxe, uma civilização rica em ouro, marfim e ébano, com capital em Napata, aos pés do monte Jebel Barkal.
Egito e Núbia tiveram uma relação longa e cheia de conflitos. Durante o chamado Novo Império, entre os séculos XVI e XI a.C., os egípcios conquistaram a Núbia, interessados principalmente em suas minas de ouro. Nesse período, impuseram sua religião e seus costumes. Os núbios adotaram o culto ao deus Amon, a escrita em hieróglifos e a arquitetura egípcia e passaram a se ver como os verdadeiros guardiões das tradições egípcias.
Como os núbios conquistaram o Egito
Por volta do século VIII a.C., a situação se inverteu. O Egito estava politicamente fragmentado, dividido entre vários governantes locais, e o norte do país era controlado por chefes de origem líbia. Enquanto isso, o Reino de Cuxe estava forte e unido. O rei cuxita Kashta começou a estender sua influência para o sul do Egito, e seu filho Piye foi além.
Por volta de 728 a.C., Piye liderou uma grande campanha militar rumo ao norte, que durou cerca de um ano, e derrotou os governantes do Delta do Nilo. Ele registrou sua vitória em uma grande estela de pedra, encontrada no templo de Jebel Barkal. Com isso, Piye se tornou o primeiro dos faraós núbios e deu início à 25ª dinastia egípcia.
Os faraós negros da 25ª dinastia
| Faraó | Reinado aproximado | Destaque |
|---|---|---|
| Piye | c. 744 a 714 a.C. | Conquistou o Egito e fundou a dinastia |
| Shabaka | c. 714 a 698 a.C. | Consolidou o domínio sobre todo o Egito e realizou grandes obras |
| Shebitku | c. 698 a 690 a.C. | Enfrentou o avanço do Império Assírio |
| Taharqa | 690 a 664 a.C. | Reinado mais próspero e o mais famoso da dinastia |
| Tanutamani | 664 a 656 a.C. | Último faraó núbio a governar o Egito |
A ordem e as datas exatas de alguns desses reinados ainda são discutidas pelos historiadores.
Shabaka
Quando Piye morreu, o trono ficou com Shabaka, considerado seu irmão. Ele adotou o nome real de Neferkare, o mesmo usado séculos antes pelo faraó Pepi II, uma forma de se ligar às glórias do passado egípcio. Shabaka consolidou o controle sobre todo o país e fez muitas obras públicas, especialmente em Tebas, o grande centro religioso do Egito, e em Mênfis. Também é dele a famosa Pedra de Shabaka, onde mandou copiar um antigo texto religioso para que ele não se perdesse.
Taharqa
Depois de Shebitku, assumiu Taharqa, filho de Piye e o faraó mais conhecido da dinastia. Seu reinado foi marcado por uma cheia excepcional do Nilo, que garantiu grandes colheitas e muita fartura. Com esses recursos, ele ampliou o templo de Amon em Karnak e construiu templos no monte Jebel Barkal, onde os núbios acreditavam que o deus Amon vivia.
Taharqa também aparece na Bíblia, com o nome de Tiraca, rei da Etiópia (que era como os textos antigos chamavam a Núbia). Em 701 a.C., ainda como príncipe, ele comandou um exército que marchou contra o rei assírio Senaqueribe, que havia invadido o reino de Judá, governado pelo rei Ezequias. O episódio é narrado no segundo livro dos Reis e no livro de Isaías.
O fim dos faraós negros
O grande inimigo dos faraós núbios foi o Império Assírio, a maior potência militar da época. Em 671 a.C., o rei assírio Assaradão invadiu o Egito, tomou a cidade de Mênfis e obrigou Taharqa a recuar para o sul. Taharqa ainda tentou retomar o controle, mas foi derrotado novamente. Ele morreu em 664 a.C. e foi sepultado em uma pirâmide em Nuri, às margens do Nilo, no Sudão. É a maior das pirâmides da região.
Seu sucessor, Tanutamani, filho de Shabaka, chegou a reconquistar o Egito por um breve período. Mas os assírios, agora sob o rei Assurbanípal, voltaram e saquearam Tebas em 663 a.C. Tanutamani recuou para a Núbia, e por volta de 656 a.C. o controle do Egito passou definitivamente para a 26ª dinastia, encerrando o domínio dos faraós negros.
O legado da 25ª dinastia
A dinastia núbia governou o Egito por cerca de 70 anos e trouxe prosperidade ao país durante boa parte desse tempo. Em vez de impor uma cultura estrangeira, os faraós negros se apresentaram como restauradores das antigas tradições egípcias. Reformaram templos, ergueram novas construções em homenagem aos deuses e incentivaram a arte inspirada nos períodos mais antigos do Egito.
Mesmo depois de perder o Egito, o Reino de Cuxe continuou existindo por quase mil anos, primeiro com capital em Napata e depois em Meroé. Os reis cuxitas mantiveram a tradição de serem enterrados em pirâmides. Por isso, o Sudão tem hoje cerca de 200 pirâmides, mais do que o próprio Egito. Elas são menores e mais pontiagudas que as famosas pirâmides de Gizé.
Por muito tempo, a história dos faraós núbios foi pouco estudada e até minimizada por historiadores europeus. Nas últimas décadas, novas escavações no Sudão ajudaram a recuperar a importância dessa civilização africana.
Perguntas frequentes sobre os faraós negros
Quem foi o primeiro faraó negro do Egito?
Piye, rei de Cuxe, que conquistou o Egito por volta de 728 a.C. e fundou a 25ª dinastia. Antes dele, seu pai, Kashta, já tinha estendido a influência núbia sobre o sul do Egito.
Quanto tempo durou a dinastia dos faraós negros?
Cerca de 70 anos, do fim do século VIII a.C. até por volta de 656 a.C.
Os egípcios antigos eram negros?
A população do Egito Antigo era diversa, com tons de pele que variavam de região para região e ao longo dos séculos. Classificar os egípcios com as categorias de raça atuais é difícil e gera muito debate entre historiadores. O que se sabe com certeza é que eles não se pareciam com os atores brancos dos filmes de Hollywood e que os faraós da 25ª dinastia eram núbios, vindos do atual Sudão.
Onde estão as pirâmides dos faraós negros?
No Sudão, em sítios arqueológicos como El-Kurru, Nuri e Meroé, às margens do Rio Nilo.


